Síndrome Pós-Cuidados Intensivos pode deixar sequelas físicas, emocionais e cognitivas, alerta fisioterapeuta
Especialista explica que internação prolongada em UTI pode causar fraqueza muscular, perda de memória, alterações emocionais e impactos familiares, mesmo anos após a alta hospitalar.

A permanência prolongada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pode deixar marcas profundas que vão além da doença que levou o paciente à internação. O tema foi destaque em entrevista concedida pelo fisioterapeuta Vinicius Oliveira, da Reabserv, que explicou os impactos da chamada Síndrome Pós-Cuidados Intensivos (PICS).
Segundo Vinicius, apesar de o nome ainda ser pouco conhecido por muitos ouvintes, a síndrome é mais comum do que se imagina.
“É um nome novo pra muita gente, mas é muito comum. Pra entender essa nomenclatura, a gente tem que olhar o ser humano de forma sistêmica. Somos uma ‘máquina’, entre aspas, com vários sistemas que interagem entre si”, explicou.
Ele destacou que, durante uma internação prolongada, não é apenas o órgão afetado inicialmente que sofre consequências.
“Se a pessoa teve uma pneumonia por Covid, por exemplo, não é só o pulmão que inflama. Outros órgãos também podem ser comprometidos. E quanto maior o tempo de internamento, maior o impacto.”
A PICS, de acordo com o fisioterapeuta, pode atingir aspectos físicos, cognitivos e emocionais, independentemente da doença de origem.
“Não estou falando só de neurologia. Qualquer paciente que passe por uma UTI pode apresentar sequelas pelo simples fato de ter ficado hospitalizado.”
Entre as principais complicações estão fraqueza muscular generalizada, perda de massa muscular, dificuldade para realizar atividades básicas do dia a dia, alterações cognitivas e problemas psicológicos.
“O paciente muitas vezes não consegue sair da cama, tomar banho sozinho, subir uma escada. Pode apresentar perda de memória, ficar mais letárgico, mais fraco”, detalhou.
Além do paciente, a síndrome também pode afetar familiares e até os próprios profissionais de saúde.
“Não ataca somente os órgãos. Ataca a família, desestrutura a rotina. Às vezes era o pai ou a mãe que sustentava a casa. Isso mexe com todo o sistema familiar”, ressaltou.
Ele também citou o impacto emocional nas equipes. “Não é fácil para o profissional ver um paciente evoluir mal, mesmo fazendo tudo que está ao alcance.”
Vinicius relatou o caso de um paciente jovem e saudável que contraiu Covid-19 em 2020 e precisou de internação prolongada.
“Era um homem de quase dois metros de altura, trabalhava com segurança, andava quilômetros de bicicleta todos os dias. Após a pneumonia viral, ficou meses internado e saiu com a síndrome.”
O paciente passou cerca de dois anos restrito ao leito e apresentou complicações como feridas por pressão, perda de massa muscular, problemas renais — inclusive com retirada de um rim — além de alterações psicológicas.
“Seis anos depois, ele ainda tem sequelas. Não da Covid em si, mas da internação prolongada”, afirmou.
De acordo com o fisioterapeuta, idosos, pacientes com comorbidades como diabetes e hipertensão e aqueles que precisaram de ventilação mecânica têm maior risco.
“A idade pesa. Uma pessoa de 90 anos não reage como uma de 18. Pacientes que passaram por intubação ou já tinham outras doenças tendem a apresentar mais sequelas”, explicou.
Vinicius enfatizou que o tratamento não deve começar apenas após a alta. “A gente não pode aguardar a alta para tratar a PICS. A atuação precisa começar ainda na fase hospitalar.”
Ele destacou que a mobilização precoce, uso de equipamentos, metas funcionais e planejamento de alta reduzem o impacto da internação.
“Retirar o paciente do leito o mais rápido possível, quando clinicamente estável, faz toda a diferença.”
O profissional comemorou ainda a legislação baiana que exige fisioterapeutas 24 horas nas UTIs do estado, ressaltando que a presença contínua melhora os desfechos clínicos.
“Conseguimos dar alta mais precoce, retirar da ventilação mecânica mais rápido. Isso reduz sequelas.”
Ao perceber limitações físicas, lapsos de memória, perda de peso, fraqueza ou alterações emocionais após a alta, a orientação é buscar avaliação especializada.
“A família precisa estar atenta aos sinais. Mudou o perfil? Está mais fraco? Perdeu peso? Está diferente emocionalmente? É hora de procurar profissionais especializados para montar um plano de reabilitação”, orientou.
Segundo ele, muitos casos podem ser revertidos ou significativamente melhorados com acompanhamento adequado.
“Tem como reverter, sim, em vários casos. Quanto mais cedo iniciar, melhores os resultados.”






