Endividamento das famílias bate recorde e ultrapassa 80% no Brasil
Percentual chega a 80,4% em março, maior nível da série histórica, e especialistas apontam inflação, juros altos e renda instável como principais causas

O percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 80,4% em março, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O índice representa um aumento de 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro e de 3,3 pontos na comparação com o mesmo período do ano passado, evidenciando o avanço contínuo do comprometimento da renda das famílias.
De acordo com a entidade, a tendência é que o endividamento siga crescendo nos próximos meses, mesmo com a recente redução da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,75% ao ano. Isso porque os efeitos da queda dos juros ainda demoram a chegar ao consumidor, mantendo o crédito caro e pressionando o orçamento doméstico.
O cenário também sofre influência de fatores externos, como a alta do preço do petróleo, que impacta diretamente o custo dos combustíveis e, consequentemente, o preço de produtos essenciais, sobretudo os da cesta básica.
Para o economista e professor Rafael Almeida, o problema do endividamento no Brasil é histórico, mas tem se agravado nos últimos anos por uma combinação de fatores estruturais.
“O endividamento das famílias sempre foi um problema grave aqui no Brasil, mas tem piorado nos últimos anos, alcançando esse recorde de 80% das famílias endividadas”, afirmou.
Segundo ele, a alta informalidade no mercado de trabalho contribui diretamente para esse cenário.
“Quem está na informalidade geralmente tem uma renda instável, muito variável, o que aumenta o risco de endividamento”, explicou.
Rafael também destaca que, apesar da taxa de desemprego relativamente baixa, muitos postos de trabalho são de baixa remuneração, o que limita o poder de consumo.
“Nós temos uma baixa taxa de desemprego, mas ela é, de certa forma, disfarçada pela alta informalidade e por empregos majoritariamente de baixa remuneração”, pontuou.
Outro fator relevante é a inflação, especialmente dos produtos básicos, que reduz o poder de compra das famílias.
“Quando os produtos da cesta básica estão mais caros, sobra uma parcela menor da renda para outras despesas”, disse o economista.
Ele explica que o aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de consumo.
“Se aumenta o preço do diesel, o transporte fica mais caro e, por sua vez, as mercadorias também ficam mais caras, inclusive os produtos essenciais”, destacou.
Além disso, o especialista chama atenção para o impacto dos juros elevados no crescimento das dívidas.
“Quando a pessoa atrasa uma parcela, ela cai em juros muito altos. A dívida cresce rapidamente e, muitas vezes, o consumidor desiste de pagar”, alertou.
Rafael aponta ainda a falta de educação financeira como um dos agravantes.
“A população se expõe a riscos elevados constantemente, muitas vezes sem planejamento, o que contribui para o aumento do endividamento”, afirmou.
Para reverter o cenário, o economista defende a adoção de medidas estruturais no país, incluindo mudanças na gestão pública e no modelo econômico.
“Precisamos de reformas profundas. O Estado brasileiro arrecada muito, mas gasta mal. É necessário reduzir gastos e abrir espaço para diminuir impostos”, avaliou.
Segundo ele, a redução da carga tributária poderia dar mais fôlego às famílias.
“Isso permitiria que as famílias tivessem mais renda disponível e se endividassem menos”, disse.
O especialista também defende a reindustrialização do país como forma de gerar empregos com melhor remuneração.
“Precisamos reduzir a informalidade e criar empregos de maior renda. Só assim teremos uma melhora consistente no médio e longo prazo”, concluiu.
*Com informações do repórter JP Miranda







