Cardiologista alerta sobre desinformação nas redes sociais e defende “alfabetização científica” da população
Especialista alerta para modismos, suplementos e protocolos hormonais sem comprovação

Durante o quadro Momento IDM Cardio, o médico cardiologista Israel Reis fez um alerta sobre os riscos da desinformação em saúde nas redes sociais e defendeu que a população tenha o mínimo de conhecimento científico para se proteger de modismos, promessas milagrosas e tratamentos sem comprovação.
Segundo o especialista, a maior defesa do paciente é entender como funciona a ciência.
“A maior defesa do paciente é entender o mínimo sobre ciência. Eu sou defensor de uma certa alfabetização da população. É a única forma dela se proteger de modismos em saúde, suplementos sem lastro, hormônios e protocolos que aparecem na internet”, afirmou.
O cardiologista explicou que hoje é comum influenciadores utilizarem a expressão “existe um estudo” para validar qualquer tipo de orientação, mesmo quando a evidência científica é frágil.
“Se eu disser aqui que existe um chá que cura pressão e afirmar com muita convicção que há um estudo comprovando, isso viraliza em minutos. Daqui a pouco, pacientes vão querer a receita”, exemplificou.
Ele alertou que nem todo estudo tem o mesmo peso científico.
“Ciência é método, é rigor, é repetição. Existe uma hierarquia de estudos. Um relato de caso, por exemplo, é quando eu testo algo em um único paciente e relato. Isso é uma evidência fraquíssima. Diferente de estudos com milhares de pessoas, grupo controle, placebo e acompanhamento por anos.”
Para o médico, o paciente deve fazer perguntas básicas antes de acreditar em conteúdos divulgados na internet:
- Quantas pessoas participaram do estudo?
- Houve grupo controle?
- O estudo foi repetido por outros pesquisadores?
- Há consenso entre especialistas?
- Quem está divulgando: profissionais sérios ou apenas influenciadores?
“Ter milhões de seguidores não é currículo científico. Seguidor não é autoridade. Isso não dá base científica nenhuma”, reforçou.
O cardiologista citou como exemplo as críticas recorrentes aos medicamentos para colesterol, especialmente as estatinas.
“Estamos falando de uma classe de drogas com mais de 30 anos de estudos e mais de um milhão de pacientes testados. Diversos trabalhos mostram redução de risco de infarto e AVC. Mas, de vez em quando, aparece um estudo pequeno, sem grupo controle, dizendo o contrário, e isso viraliza.”
Segundo ele, muitos pacientes chegam ao consultório questionando ou até suspendendo tratamentos com base em conteúdos da internet.
“Já atendi pacientes que abandonaram medicação porque viram influenciadores falando que fazia mal. Isso tem atrapalhado muito. Existe um gasto energético enorme no consultório para reeducar e reconquistar a confiança.”
O médico relatou um caso recente de uma paciente que utilizava uma cápsula contendo cerca de 20 substâncias diferentes, incluindo corticoide, anti-hipertensivo, anti-inflamatório e medicamento para diabetes.
“O paciente precisa perguntar: isso foi testado? Qual a evidência? Essa dose existe em estudos? Eu não posso tirar da minha cabeça 35,5 mg de um remédio se isso não foi validado. Quando começamos a prescrever de forma empírica, colocamos o paciente em risco.”
Outro ponto abordado foram as promessas relacionadas a perda de peso, testosterona e desempenho sexual, temas que, segundo ele, viralizam rapidamente por mexerem com inseguranças e dores pessoais.
“Se eu digo ‘emagreça 10 quilos em 15 dias’, isso viraliza. Se eu mexo com testosterona, estética ou sexualidade, viraliza mais ainda. Mas a pergunta é: isso foi testado? Em qual perfil de paciente? Por quanto tempo?”
Ele criticou também dietas e protocolos hormonais sem respaldo científico.
“A pessoa precisa se perguntar: eu realmente me encaixo nesse perfil que foi estudado? Isso foi testado para minha faixa etária? Existe evidência de segurança a longo prazo?”
De acordo com o cardiologista, combater a desinformação virou parte da rotina médica.
“É um trabalho de formiguinha. Muitas vezes, a desinformação vem até de pseudo-médicos ou de empresários que vendem suplementos e hormônios. Há estudos mostrando que grande parte da desinformação em saúde parte de pessoas que não são da área.”
Ele reforça a importância da educação em saúde como ferramenta de proteção.
“Se o paciente souber fazer esse checklist mínimo, já vai filtrar muita informação ruim da internet. Conhecimento é proteção.”







