Economia

Queda da Selic é positiva, mas pressão do petróleo impõe incertezas, avalia economista

Professor da FGV aponta que redução foi possível com queda da inflação, porém alerta para riscos vindos do mercado global

19/03/2026 18h35
Queda da Selic é positiva, mas pressão do petróleo impõe incertezas, avalia economista
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, passando de 15% para 14,75% ao ano, foi considerada positiva, mas cercada de cautela pelo professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Alberto Ajzental, em entrevista ao programa De Olho na Cidade da Rádio Sociedade News.

Segundo o especialista, o movimento já era esperado pelo mercado, mas o cenário internacional impôs limites para cortes mais agressivos.

“É uma boa notícia. Essa queda de 15% para 14,75% era aguardada e representa um momento importante, porque foi a segunda reunião do ano e ainda temos várias pela frente”, avaliou.

Foto: Divulgação

O economista destacou que a trajetória recente da inflação no Brasil vinha permitindo uma flexibilização da política monetária. Ele citou a desaceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como fator determinante.

“A gente tinha uma inflação de 5,5% no ano passado e já observou 3,81% recentemente, com previsão de fechar o ano em 4,1%. Isso permitia sim um corte maior na Selic”, explicou.

Apesar do ambiente interno mais favorável, Ajzental ressaltou que o conflito envolvendo o Irã alterou significativamente o cenário global, principalmente com a disparada no preço do petróleo.

“O barril do petróleo saiu de cerca de 60 dólares no início do ano para níveis entre 100 e 120 dólares. Isso gera pressão inflacionária, especialmente em combustíveis e fertilizantes”, afirmou.

De acordo com ele, esse movimento deve impactar diretamente os preços de transportes e alimentos nos próximos meses.

Mesmo diante das incertezas, o professor avalia que ainda há espaço para novas reduções, embora em ritmo moderado.

“O Copom agiu com muita precaução. Temos uma taxa real de juros muito alta, acima de 10%. Há margem para novos cortes, e o mais provável é mais uma redução de 0,25 ponto na próxima reunião”, disse.

No entanto, ele condiciona essa continuidade à evolução do cenário internacional.

“Vai depender muito do que acontece com o Estreito de Ormuz. Se houver normalização, os preços podem cair. Caso contrário, o cenário pode se deteriorar”, alertou.

Para Ajzental, a decisão deve ser vista com cautela, sem euforia.

“É uma comemoração contida. Cortou porque ainda há espaço e tempo, mas com muita observação. Só em um cenário muito extremo haveria volta na alta dos juros, o que hoje está fora do radar”, pontuou.

O economista também destacou que o impacto inflacionário não é exclusivo do Brasil, mas um fenômeno global que afeta diversas economias.

“Essa pressão inflacionária não é privilégio nosso. É mundial. Por isso, há um esforço global para evitar que os bancos centrais precisem voltar a subir juros”, concluiu.

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