Queda da Selic é positiva, mas pressão do petróleo impõe incertezas, avalia economista
Professor da FGV aponta que redução foi possível com queda da inflação, porém alerta para riscos vindos do mercado global

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, passando de 15% para 14,75% ao ano, foi considerada positiva, mas cercada de cautela pelo professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Alberto Ajzental, em entrevista ao programa De Olho na Cidade da Rádio Sociedade News.
Segundo o especialista, o movimento já era esperado pelo mercado, mas o cenário internacional impôs limites para cortes mais agressivos.
“É uma boa notícia. Essa queda de 15% para 14,75% era aguardada e representa um momento importante, porque foi a segunda reunião do ano e ainda temos várias pela frente”, avaliou.

O economista destacou que a trajetória recente da inflação no Brasil vinha permitindo uma flexibilização da política monetária. Ele citou a desaceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como fator determinante.
“A gente tinha uma inflação de 5,5% no ano passado e já observou 3,81% recentemente, com previsão de fechar o ano em 4,1%. Isso permitia sim um corte maior na Selic”, explicou.
Apesar do ambiente interno mais favorável, Ajzental ressaltou que o conflito envolvendo o Irã alterou significativamente o cenário global, principalmente com a disparada no preço do petróleo.
“O barril do petróleo saiu de cerca de 60 dólares no início do ano para níveis entre 100 e 120 dólares. Isso gera pressão inflacionária, especialmente em combustíveis e fertilizantes”, afirmou.
De acordo com ele, esse movimento deve impactar diretamente os preços de transportes e alimentos nos próximos meses.
Mesmo diante das incertezas, o professor avalia que ainda há espaço para novas reduções, embora em ritmo moderado.
“O Copom agiu com muita precaução. Temos uma taxa real de juros muito alta, acima de 10%. Há margem para novos cortes, e o mais provável é mais uma redução de 0,25 ponto na próxima reunião”, disse.
No entanto, ele condiciona essa continuidade à evolução do cenário internacional.
“Vai depender muito do que acontece com o Estreito de Ormuz. Se houver normalização, os preços podem cair. Caso contrário, o cenário pode se deteriorar”, alertou.
Para Ajzental, a decisão deve ser vista com cautela, sem euforia.
“É uma comemoração contida. Cortou porque ainda há espaço e tempo, mas com muita observação. Só em um cenário muito extremo haveria volta na alta dos juros, o que hoje está fora do radar”, pontuou.
O economista também destacou que o impacto inflacionário não é exclusivo do Brasil, mas um fenômeno global que afeta diversas economias.
“Essa pressão inflacionária não é privilégio nosso. É mundial. Por isso, há um esforço global para evitar que os bancos centrais precisem voltar a subir juros”, concluiu.







