Psicóloga aponta fatores que elevaram diagnósticos e afastamentos por saúde mental
Número de licenças por ansiedade e depressão saltou de 91,6 mil em 2020 para 472 mil no último ano, segundo Ministério da Previdência Social

O número de trabalhadores afastados por transtornos mentais disparou no Brasil. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, foram 472.328 licenças em 2024, o maior índice da série histórica iniciada em 2014. A alta ultrapassa 400% quando comparada ao período pré-pandemia, em 2020, eram pouco mais de 91 mil registros.
A psicóloga Carolina Carvalho explica que esse salto expressivo é resultado de uma combinação de fatores.
“Os transtornos mentais não têm uma única causa, eles são multifatoriais. Há influência genética, social e mudanças significativas no mercado de trabalho após a pandemia, como o home office e o aumento da cobrança por produtividade.”
Além disso, o pós-pandemia trouxe um contexto contínuo de insegurança.
“Vivemos uma onda persistente de medo, luto, instabilidade econômica e incertezas nos empregos. Isso intensificou o sofrimento psíquico.”
Somam-se a isso diagnósticos mais precoces e maior reconhecimento de transtornos como ansiedade, depressão e síndrome do pânico.
Carolina ressalta que o ambiente profissional pode contribuir para o adoecimento psicológico, mas não deve ser entendido como única causa.
“O trabalho pode ser um fator desencadeante, mas o transtorno já existe como risco. Uma pressão por metas, jornadas exaustivas ou assédio moral podem ser a ‘gota d’água’ para o transbordar emocional.”
Adoecimento maior nas mulheres
O levantamento aponta que 64% das pessoas afastadas em 2024 eram mulheres, com idade média de 41 anos, especialmente com diagnósticos ligados à ansiedade e depressão.
Para a psicóloga, isso se explica por questões sociais e estruturais.
“As mulheres enfrentam dupla ou até tripla jornada: trabalho remunerado, cuidado com a casa e os filhos. Muitas não têm rede de apoio. Falta tempo para sono, autocuidado e descanso, gerando sobrecarga física e emocional.”
Ela destaca que, diante do acúmulo de demandas, pequenos gatilhos podem desencadear crises mais graves.
“É como um copinho que vai enchendo. Quando chega mais cobrança no trabalho, assédio ou estresse extremo, pode ser o ponto de transbordar.”
Impacto social e financeiro
Em 2023, o INSS recebeu 3,5 milhões de pedidos de licença por diversos motivos. Somente os afastamentos por transtornos mentais custaram mais de R$ 3 bilhões aos cofres públicos, com média de três meses de duração por benefício.
Uma mudança importante está prevista para 2026: todas as empresas deverão mapear riscos psicossociais no ambiente corporativo, conforme atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1).
“As empresas terão que prevenir que o trabalho seja um fator de adoecimento. Será preciso equilibrar carga de trabalho, oferecer suporte psicológico, fortalecer líderes e criar ambientes saudáveis.” Avalia a psicóloga.
Ela afirma que o psicólogo organizacional tem papel estratégico nesse processo.
“Somos a ponte entre empresa e trabalhador, buscando um equilíbrio que permita produtividade com saúde e qualidade de vida.”
Carolina defende que ações de prevenção comecem antes do adoecimento.
“Precisamos ampliar o acesso à saúde mental no SUS, trabalhar psicoeducação desde a Atenção Primária e fortalecer redes de apoio. Isolamento social é fator de risco.”
Se antes afastamentos eram predominantemente por lesões físicas e esforço repetitivo, o cenário mudou.
“Hoje vemos ansiedade, depressão e burnout como principais causas de afastamento. O corpo emocional está pedindo socorro.”
*Com informações do repórter JP Miranda





