Jiu-jitsu cresce entre mulheres como ferramenta de defesa e autoconfiança diante do aumento da violência
Busca por segurança impulsiona prática de artes marciais

Em meio ao aumento da violência contra a mulher no Brasil, cresce o número de brasileiras que buscam nas artes marciais uma forma de proteção e fortalecimento pessoal. Dados recentes apontam que seis em cada dez mulheres já praticam ou têm interesse em iniciar alguma modalidade, motivadas não apenas pelos benefícios à saúde, mas principalmente pela sensação de segurança.
O cenário é preocupante. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou uma média de quatro feminicídios por dia no último ano. Além disso, quase 40% das mulheres relataram ter sofrido algum tipo de violência no mesmo período. Diante dessa realidade, 57,9% afirmam que gostariam de aprender a lutar para se proteger, enquanto 54% acreditam que a prática aumenta a autonomia.
Entre as modalidades mais procuradas estão o muay thai e o jiu-jitsu, este último com destaque por trabalhar técnicas voltadas à defesa pessoal, inclusive em situações em que o agressor é fisicamente mais forte.
A professora de jiu-jitsu, sensei Paloma Dantas, explica que a prática vai muito além do combate físico.
“Quando a gente fala de jiu-jitsu, a gente não está falando só sobre defesa física. É claro que ele ensina a se proteger, principalmente em situações em que o oponente é maior e mais forte. Mas vai muito além disso. Desenvolve autoconfiança, muda a postura da pessoa e faz com que ela perceba melhor o ambiente ao seu redor”, afirmou.
Segundo ela, a modalidade também contribui para a prevenção de situações de risco.
“Muitas vezes, a melhor defesa é evitar a situação antes que ela aconteça”, destacou.
A busca por segurança é, de fato, uma das principais portas de entrada para mulheres no esporte. No entanto, a permanência está ligada a transformações mais profundas.
“É muito comum mulheres chegarem com medo, com a preocupação de saber se defender. Mas, com o tempo, isso muda. Elas começam pela defesa pessoal, mas ficam por tudo que o jiu-jitsu proporciona. É sobre se sentir segura, confiante, dona de si”, explicou.

Paloma também ressalta que a prática pode provocar mudanças significativas no estilo de vida.
“Muitas alunas chegam sedentárias e mudam completamente a vida. Algumas, inclusive, se tornam competidoras”, disse.
Outro ponto destacado pela professora é a quebra de preconceitos em relação à modalidade, especialmente entre pais e mães.
“Existe um mito de que o jiu-jitsu deixa a pessoa agressiva, mas é totalmente o contrário. Quem treina desenvolve o controle emocional, a calma e a consciência. A agressividade tende a diminuir”, afirmou.
Ela também desmistifica a ideia de que é necessário ter força física para iniciar.
“Muita gente acha que precisa ser forte, mas isso é um mito. O jiu-jitsu é técnica, não força. Ele foi aperfeiçoado justamente para que uma pessoa menor consiga se defender de alguém maior”, explicou.

Além da visão técnica, quem vive a prática no dia a dia também reforça a importância das artes marciais. A estudante Aila Christie dos Reis de Jesus, aluna de muay thai, conta que a decisão de começar veio tanto pela busca por segurança quanto por questões pessoais.
“Desde sempre tive interesse em fazer alguma arte marcial por segurança, mas não tinha encontrado algo que me chamasse atenção. Também tinha dificuldade em me dedicar a atividades físicas. Comecei por questões de saúde e incentivo do meu namorado, e o ambiente leve, com pessoas acolhedoras e um professor motivador, me conquistou”, relatou.
Sobre a sensação de segurança, Aila destaca que o aprendizado vai além da prática física e traz consciência sobre limites e estratégias.
“Sim e não. Com o tempo, você entende os limites da sua força e percebe que os homens, em geral, são mais fortes. Mas o treino ensina como usar sua força da melhor forma e aplicar técnicas que equilibram uma situação. Isso não desmotiva, pelo contrário, te dá noções que você não teria sem o esporte”, explicou.
Ela também deixa um recado para outras mulheres que ainda têm receio de começar.
“Quanto mais cedo você iniciar, melhor. Nunca esperamos precisar usar defesa pessoal, mas se for necessário, você vai saber como agir. Além disso, você se sente mais segura, mais confiante e orgulhosa por estar aprendendo algo novo. As mulheres precisam enxergar as artes marciais como algo necessário para a segurança e desenvolvimento pessoal”, aconselhou.
Para Paloma, os ganhos vão muito além do tatame.
“No final, o jiu-jitsu não forma só lutadoras. Forma mulheres mais seguras, mais fortes e mais conscientes”, concluiu.
Com a crescente sensação de insegurança, especialmente em espaços públicos como o transporte coletivo, onde 42,8% das mulheres dizem se sentir mais protegidas após aprender a lutar, as artes marciais se consolidam como uma importante ferramenta não apenas de defesa, mas de transformação pessoal.
*Com informações do repórter JP Miranda







