Diesel verde surge como alternativa promissora na transição energética, avalia especialista da UFRB
Combustível apresenta maior eficiência, redução de emissões e pode ser utilizado sem adaptações na frota atual, mas ainda enfrenta desafios de custo e escala no Brasil

O chamado diesel verde, conhecido internacionalmente como HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), vem ganhando espaço nas discussões sobre o futuro dos combustíveis no Brasil. De acordo com a professora doutora Carine Alves, do curso de Engenharia de Energia da UFRB, o combustível apresenta vantagens importantes em relação ao biodiesel convencional, especialmente em eficiência, emissões e compatibilidade com a frota atual.
Segundo a especialista, a principal diferença entre os dois biocombustíveis está no processo de produção e na composição final.
“Enquanto o biodiesel é produzido por meio da transesterificação de óleos vegetais ou gorduras, resultando em ésteres, o diesel verde é obtido por rotas de hidrotratamento, semelhantes às utilizadas no refino do petróleo”, explicou.
Essa diferença impacta diretamente no desempenho. “O produto final do diesel verde é composto majoritariamente por parafinas, com características físico-químicas muito próximas às do diesel fóssil”, destacou Carine.
Maior eficiência e menor emissão
Do ponto de vista energético, o diesel verde se mostra mais eficiente. “Ele possui maior densidade energética em comparação ao biodiesel, o que se traduz em melhor desempenho por unidade de volume e menor impacto no consumo dos motores”, afirmou.
Em relação às emissões, ambos os combustíveis apresentam vantagens ambientais, mas o diesel verde se sobressai.
“Ele tende a apresentar um desempenho superior na redução de material particulado e óxidos de nitrogênio, devido à ausência de oxigênio na sua estrutura molecular, o que resulta em uma queima mais limpa e homogênea”, pontuou.
Compatibilidade como diferencial
Outro fator considerado estratégico é a facilidade de uso. “O diesel verde é um ‘drop-in fuel’, ou seja, pode substituir totalmente o diesel fóssil sem necessidade de adaptações nos motores, na infraestrutura ou na logística”, explicou a professora.
Já o biodiesel enfrenta algumas limitações. “Ele pode apresentar problemas relacionados à estabilidade, absorção de água e desempenho em baixas temperaturas, além de restrições de mistura impostas pelos fabricantes”, completou.
Viabilidade no Brasil depende de avanços
Apesar do potencial, Carine Alves ressalta que a consolidação do diesel verde no Brasil ainda depende de alguns fatores.
“Existe um potencial real para que ele se torne uma alternativa viável, mas isso está condicionado a avanços tecnológicos, econômicos e estruturais”, afirmou.
No campo tecnológico, o processo já é considerado maduro. “O hidrotratamento é amplamente dominado em escala industrial, o que reduz incertezas quanto à qualidade e desempenho do combustível”, disse. No entanto, há desafios. “É necessário adaptar e ampliar as unidades industriais existentes, além de desenvolver catalisadores mais eficientes, principalmente para matérias-primas de menor pureza”, destacou.
Custo e matéria-prima são desafios
O custo de produção ainda é um dos principais entraves. “Ele é fortemente influenciado pelo preço de matérias-primas como óleos vegetais e gorduras, que também competem com o setor de alimentos e com o próprio biodiesel”, explicou.
Uma das saídas apontadas é a diversificação das fontes. “A viabilidade passa pela utilização de resíduos agroindustriais, óleos residuais e até rotas emergentes, como o uso de microalgas”, afirmou.
Papel das políticas públicas
A especialista também destaca a importância de incentivos governamentais. “Políticas públicas, créditos de carbono e instrumentos regulatórios são fundamentais para valorizar combustíveis de menor intensidade de carbono”, disse.
Ela cita ainda programas já existentes. “O RenovaBio é um avanço importante, mas será decisivo ampliar políticas que contemplem de forma mais específica o diesel verde, garantindo segurança regulatória e previsibilidade para investimentos”, avaliou.
Perspectiva para o futuro
Para Carine, o diesel verde pode ter papel relevante, principalmente em setores onde a eletrificação ainda é difícil.
“Ele tem grande potencial em segmentos como o transporte pesado e a aviação”, afirmou.
No entanto, ela reforça que a consolidação dependerá de três pilares principais. “Acesso competitivo a matérias-primas sustentáveis, políticas públicas consistentes e avanços contínuos na eficiência dos processos produtivos”, concluiu.
*Com informações do repórter JP Miranda






