Economia

Venezuela após Maduro: recuperação econômica é possível, alerta economista

Visão econômica projeta crescimento e retorno de venezuelanos, enquanto cenário político segue indefinido

04/01/2026 16h00
Venezuela após Maduro: recuperação econômica é possível, alerta economista
Foto: Isaac Urrutia/Reuters

A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por autoridades dos Estados Unidos, após uma operação militar em Caracas, abre um novo e incerto capítulo na história política e econômica do país e provoca impactos diretos no cenário geopolítico internacional. Para o economista professor Amarildo Gomes, especialista em gestão empresarial e mestre em desenvolvimento regional e urbano, o desfecho pode representar, a longo prazo, uma oportunidade de retomada econômica para os venezuelanos, embora a forma como a ação foi conduzida gere forte preocupação do ponto de vista do direito internacional.

Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram presos no sábado (03) e levados para os Estados Unidos, onde permanecem detidos em Nova York. Ambos são acusados pelas autoridades norte-americanas de narcotráfico internacional e terrorismo. O julgamento ainda não tem data definida.

Segundo Amarildo, a economia venezuelana foi profundamente destruída ao longo dos anos de regime chavista.

“A Venezuela é um país muito rico, sobretudo pelas reservas de petróleo. Já foi uma potência econômica mundial nos anos 1950, mas com o regime chavista isso se esfacelou”, afirmou.

O economista destaca o colapso do poder de compra da população como um dos efeitos mais visíveis da crise.

“Hoje, o salário mínimo na Venezuela é cerca de 20 dólares. Um juiz ganha algo em torno de 500 reais. Isso não dá sequer para fazer uma feira decente em um supermercado”, exemplificou.

Para ele, caso haja estabilidade política, econômica e jurídica, o país pode voltar a crescer.

“Se tudo der certo, a Venezuela vai voltar a ser um grande país. Cerca de oito milhões de pessoas fugiram do país nos últimos anos e parte delas tende a retornar. Com investimentos no setor petrolífero, os salários aumentam, a riqueza circula e a economia ganha fôlego”, explicou.

Foto: Arquivo Pessoal

A possível recuperação da Venezuela também teria reflexos positivos para os países vizinhos, incluindo o Brasil.

“É bom para o Brasil e para toda a região. Grandes empresas brasileiras tendem a se instalar novamente na Venezuela, mas isso não será a curto prazo. É preciso estabilidade”, ponderou Amarildo.

Ele ressalta ainda que a retomada econômica pode reduzir o fluxo migratório. “Com a melhoria das condições de vida, muita gente deve voltar para o seu país. Isso é significativo para toda a América do Sul”, disse.

A Venezuela detém cerca de 18% a 19% das reservas conhecidas de petróleo, a maior do mundo. Para o economista, a captura de Maduro altera completamente a dinâmica desse mercado.

“Esse petróleo era majoritariamente exportado para países como China, Cuba e Irã. Agora, esses países devem enfrentar dificuldades na aquisição, tanto em quantidade quanto em preço”, analisou.

Com maior influência americana sobre a produção, a tendência seria o aumento da oferta global.

“Isso pode baratear o petróleo para o mercado norte-americano, fortalecendo a economia dos Estados Unidos e, se tudo ocorrer dentro de um processo estável, também a da Venezuela”, avaliou.

Atuação dos Estados Unidos

Apesar de reconhecer possíveis ganhos econômicos, Amarildo criticou a forma como a operação foi realizada.

“O ato é condenável. Os Estados Unidos entraram em um país soberano. Independentemente de quem seja Maduro, isso quebra leis internacionais e a Carta da ONU”, alertou.

Segundo ele, a ação cria um precedente perigoso. “Abre espaço para que grandes potências façam o mesmo em outras regiões, como no caso da Rússia, que fica em vantagem na guerra com a Ucrânia, pois abriu um precedente para invasão sem autorização da ONU, em desacordo com as leis internacionais. É um precedente extremamente perigoso para a soberania dos países, principalmente dos menores”, afirmou.

O economista considera natural a postura adotada pelo Brasil, que condenou a violação da soberania venezuelana.

“Qualquer governo brasileiro reagiria dessa forma. A Constituição orienta o Brasil a ser um país pacífico, defensor do diálogo e da soberania dos Estados”, explicou.

Para Amarildo, a situação gera desconfiança em relação ao governo dos Estados Unidos.

“O Brasil não legitimou as eleições de Maduro, mas também não apoia uma invasão. Agora, o mundo vai esperar para ver como essa situação vai se desdobrar”, disse.

Ele acredita que os próximos passos devem envolver negociações internacionais.

“Acredito que os Estados Unidos vão buscar um acordo internacional, principalmente para assegurar sua fatia no petróleo, alegando prejuízos causados pelo chavismo, algo que também afetou o Brasil e a Petrobras”, concluiu.

Enquanto o futuro político da Venezuela permanece indefinido, o economista avalia que o momento é de cautela.

“Foi uma situação inédita e grave no cenário internacional. Agora, é esperar os próximos capítulos para entender qual será, de fato, o destino da Venezuela e os impactos para o mundo”, finalizou.

*Com informações do repórter JP Miranda

Leia também:

Ação dos EUA contra a Venezuela levanta alerta sobre soberania e direito internacional, analisa cientista social

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