Educação

Realidade brasileira exige cautela em debate sobre telas na educação, diz especialista

Suécia reduz uso de telas nas escolas e debate sobre alfabetização ganha força no Brasil

20/04/2026 19h00
Realidade brasileira exige cautela em debate sobre telas na educação, diz especialista
Foto: Pixabay.

A decisão do governo da Suécia de reduzir o uso de telas nas salas de aula e retomar práticas tradicionais, como livros impressos e escrita à mão, reacendeu o debate sobre os impactos da tecnologia na educação. A medida, que inclui a retirada de tablets, o fim da obrigatoriedade de ferramentas digitais na pré-escola e a futura proibição de celulares, foi motivada pela queda no desempenho educacional do país em avaliações internacionais como o PISA.

De acordo com dados recentes, cerca de 25% dos estudantes suecos de 15 e 16 anos não atingem o nível básico de compreensão leitora. Estudos de instituições como a Universidade Karolinska também apontam que a leitura em telas pode dificultar o processamento de informações e impactar o desenvolvimento cognitivo infantil.

Para a Professora do Departamento de Educação da UEFS e Coordenadora do Colegiado de Pedagogia da UEFS, Ana Carla Lima, no entanto, é preciso cautela ao comparar a realidade sueca com a brasileira.

“Quando a gente compara países como a Suécia e o Brasil, especialmente na área da educação, é preciso ter bastante cautela, porque são realidades muito diferentes, com condições históricas, sociais e educacionais distintas”, explica.

Segundo ela, a medida adotada na Suécia não representa um abandono da tecnologia, mas uma reavaliação do seu uso.

“O que aparece como um recuo não é exatamente o abandono das telas, mas uma revisão de como elas estavam sendo utilizadas. É um ajuste dentro de um sistema que já tem uma estrutura consolidada”, afirma.

A especialista destaca ainda que o debate sobre alfabetização vai além da simples decodificação de palavras.

“Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar letras, mas assegurar que a criança participe de diferentes práticas sociais de leitura e escrita enquanto direito”, pontua.

Nesse contexto, ela reforça que a compreensão leitora envolve interpretação, produção de sentido e uso da linguagem no cotidiano.

“Não se trata apenas de responder perguntas sobre um texto, mas de produzir sentido, interpretar e usar a linguagem para agir no mundo”, diz.

Ana Carla também chama atenção para o risco de simplificação ao atribuir a queda de desempenho escolar exclusivamente ao uso de tecnologia.

“Quando aparecem resultados de avaliações internacionais, é muito comum buscar explicações rápidas, como culpar o uso da tecnologia. Isso simplifica demais a situação”, ressalta.

De acordo com ela, fatores como contexto social, políticas educacionais, formação de professores e práticas pedagógicas têm influência direta nos resultados.

No caso brasileiro, a pedagoga enfatiza que o cenário é ainda mais complexo devido às desigualdades.

“Aqui a gente convive com desigualdades muito profundas. Para muitos estudantes, o digital ainda representa acesso. Nem sempre o excesso é o grande problema na nossa realidade”, observa.

Diante desse cenário, a especialista defende que o foco não deve ser a substituição ou rejeição das tecnologias, mas a forma como elas são utilizadas no ambiente escolar.

“Mais do que reduzir ou ampliar o uso de telas, o que a gente precisa é qualificar esse uso. Garantir práticas fundamentais como a leitura aprofundada e a escrita à mão, mas também integrar o digital de forma crítica”, afirma.

Ela conclui destacando que o centro do debate deve ser o direito à aprendizagem significativa.

“A questão central não é escolher entre tecnologia ou métodos tradicionais, mas garantir que as crianças tenham experiências significativas com a linguagem, finaliza.

*Com informações do repórter JP Miranda

Comentários

Leia também

Educação
Professores da rede municipal de Feira de Santana realiza paralisação nesta quarta (23)

Professores da rede municipal de Feira de Santana realiza paralisação nesta quarta (23)

Movimento cobra cumprimento de acordo judicial, recomposição salarial e avanços nas...
Educação
Bahia abre seleção para monitores estudantis com 46 mil vagas na rede estadual

Bahia abre seleção para monitores estudantis com 46 mil vagas na rede estadual

Inscrições ocorrem entre abril e maio, com bolsas mensais para alunos do ensino fundamental...
Educação
STF garante piso nacional a professores temporários

STF garante piso nacional a professores temporários

Decisão unânime amplia direito e equipara remuneração a docentes efetivos