Realidade brasileira exige cautela em debate sobre telas na educação, diz especialista
Suécia reduz uso de telas nas escolas e debate sobre alfabetização ganha força no Brasil

A decisão do governo da Suécia de reduzir o uso de telas nas salas de aula e retomar práticas tradicionais, como livros impressos e escrita à mão, reacendeu o debate sobre os impactos da tecnologia na educação. A medida, que inclui a retirada de tablets, o fim da obrigatoriedade de ferramentas digitais na pré-escola e a futura proibição de celulares, foi motivada pela queda no desempenho educacional do país em avaliações internacionais como o PISA.
De acordo com dados recentes, cerca de 25% dos estudantes suecos de 15 e 16 anos não atingem o nível básico de compreensão leitora. Estudos de instituições como a Universidade Karolinska também apontam que a leitura em telas pode dificultar o processamento de informações e impactar o desenvolvimento cognitivo infantil.
Para a Professora do Departamento de Educação da UEFS e Coordenadora do Colegiado de Pedagogia da UEFS, Ana Carla Lima, no entanto, é preciso cautela ao comparar a realidade sueca com a brasileira.
“Quando a gente compara países como a Suécia e o Brasil, especialmente na área da educação, é preciso ter bastante cautela, porque são realidades muito diferentes, com condições históricas, sociais e educacionais distintas”, explica.
Segundo ela, a medida adotada na Suécia não representa um abandono da tecnologia, mas uma reavaliação do seu uso.
“O que aparece como um recuo não é exatamente o abandono das telas, mas uma revisão de como elas estavam sendo utilizadas. É um ajuste dentro de um sistema que já tem uma estrutura consolidada”, afirma.
A especialista destaca ainda que o debate sobre alfabetização vai além da simples decodificação de palavras.
“Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar letras, mas assegurar que a criança participe de diferentes práticas sociais de leitura e escrita enquanto direito”, pontua.
Nesse contexto, ela reforça que a compreensão leitora envolve interpretação, produção de sentido e uso da linguagem no cotidiano.
“Não se trata apenas de responder perguntas sobre um texto, mas de produzir sentido, interpretar e usar a linguagem para agir no mundo”, diz.
Ana Carla também chama atenção para o risco de simplificação ao atribuir a queda de desempenho escolar exclusivamente ao uso de tecnologia.
“Quando aparecem resultados de avaliações internacionais, é muito comum buscar explicações rápidas, como culpar o uso da tecnologia. Isso simplifica demais a situação”, ressalta.
De acordo com ela, fatores como contexto social, políticas educacionais, formação de professores e práticas pedagógicas têm influência direta nos resultados.
No caso brasileiro, a pedagoga enfatiza que o cenário é ainda mais complexo devido às desigualdades.
“Aqui a gente convive com desigualdades muito profundas. Para muitos estudantes, o digital ainda representa acesso. Nem sempre o excesso é o grande problema na nossa realidade”, observa.
Diante desse cenário, a especialista defende que o foco não deve ser a substituição ou rejeição das tecnologias, mas a forma como elas são utilizadas no ambiente escolar.
“Mais do que reduzir ou ampliar o uso de telas, o que a gente precisa é qualificar esse uso. Garantir práticas fundamentais como a leitura aprofundada e a escrita à mão, mas também integrar o digital de forma crítica”, afirma.
Ela conclui destacando que o centro do debate deve ser o direito à aprendizagem significativa.
“A questão central não é escolher entre tecnologia ou métodos tradicionais, mas garantir que as crianças tenham experiências significativas com a linguagem, finaliza.
*Com informações do repórter JP Miranda






