Economia

Ovos de Páscoa mais caros: mercado internacional do cacau influencia preços altos; entenda

Alta nos preços do cacau, insumos e logística impacta valor final

04/04/2026 12h02
Ovos de Páscoa mais caros: mercado internacional do cacau influencia preços altos; entenda
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Consumidores que foram em busca dos ovos de páscoa para este ano talvez tenham se surpreendido com os valores elevados. Segundo o economista Rosevaldo Ferreira, apesar da recente queda no preço do cacau no mercado internacional, existe um conjunto de fatores que vão desde o tempo de produção até custos acumulados ao longo da cadeia.

De acordo com o especialista, o principal ponto é o chamado “efeito delay”, ou seja, um descompasso entre o momento da queda do preço da matéria-prima e o impacto real no produto final.

“A produção de ovos de Páscoa não acontece agora, na semana do feriado. Ela começa meses antes, geralmente ainda no segundo semestre do ano anterior”, explica.

Isso significa que os chocolates vendidos em 2026 foram fabricados quando o cacau ainda atingia valores elevados no mercado internacional, chegando a custar entre 7 mil e 12 mil dólares por tonelada. Mesmo com a recente queda para cerca de 3 mil dólares, esse alívio ainda não chegou ao consumidor.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também explicam este cenário. Segundo o instituto, em 12 meses, barras e bombons acumularam alta de quase 25%. Contudo, no campo, o movimento é inverso: produtores vêm recebendo bem menos pelo cacau em relação ao ano passado.

A origem da alta está ligada à quebra de safra registrada entre 2024 e 2025, especialmente em países africanos como Costa do Marfim e Gana, grandes produtores mundiais de cacau. Problemas climáticos reduziram a oferta global e fizeram os preços dispararem.

“A safra foi muito pequena entre os anos de 2024 e 2025, fundalmente ali na Africa, que é um dos grandes produtores mundiais. Então, essa crise refletiu nos preços de agora”, aponta.

Mesmo com a recuperação gradual da produção, o mercado ainda passa por ajustes.

Estoque caro e contratos antigos

Segundo Rosevaldo, dois fatores ajudam a entender o cenário: os contratos antigos e o chamado “estoque caro”. As indústrias costumam comprar matéria-prima com antecedência de seis a doze meses, o que faz com que o chocolate atual carregue custos de um período em que o cacau estava mais caro.

Além disso, muitas fábricas ainda trabalham com estoques adquiridos nesse momento de alta. Na prática, o consumidor paga hoje por um produto que foi produzido com insumos mais caros no passado.

Além do cacau, outros insumos importantes também pressionaram os custos. Açúcar e leite registraram altas no mesmo período, contribuindo para encarecer ainda mais a produção. A isso se somam gastos com embalagens, licenciamento de marcas e transporte.

“O ovo de Páscoa exige uma logística específica, com transporte refrigerado, o que eleva o custo do frete. Com o diesel mais caro, esse impacto é ainda maior”, completa.

Outro ponto mencionado é a margem aplicada no comércio. Segundo ele, a precificação final também leva em conta a estratégia dos vendedores, que buscam maximizar lucros em um período de alta demanda.

O economista destaca ainda que outros produtos derivados do chocolate, como bombons, podem sofrer aumentos ainda mais significativos por levarem maior quantidade de açúcar e leite em sua composição.

Expectativas para o próximo ano

Apesar do cenário atual, a expectativa é de melhora a médio prazo. Com a recente queda no preço do cacau, empresas mais estruturadas já começam a recompor estoques com custos menores, o que pode refletir no preço final nos próximos anos.

“Se tudo correr bem, podemos ter uma Páscoa em 2027 com ovos mais baratos do que neste ano”, projeta.

Ferreira ressalta ainda que empresas com maior capacidade de planejamento e armazenamento tendem a se beneficiar em momentos de oscilação de mercado. Ao comprar matéria-prima em períodos de baixa e estocar, essas indústrias conseguem reduzir custos e ganhar competitividade.

*com informações do repórter JP Miranda

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