Olhar feminino na arquitetura valoriza escuta, sensibilidade e humanização dos espaços
Arquiteta feirense fala sobre desafios da profissão, liderança em obras e a importância de traduzir histórias em projetos

O quadro Home News do Jornal do Meio Dia recebeu a arquiteta Nádia Carolina para discutir o tema “O olhar feminino na arquitetura”. Com cinco anos de atuação profissional e uma trajetória marcada pela influência familiar no setor da construção civil, ela destacou como a sensibilidade e a escuta ativa fazem a diferença na criação de projetos mais humanos e inclusivos.
Nádia explicou que a arquitetura vai muito além da concepção técnica de plantas e estruturas.
“Eu entendo muito que a arquitetura vai além de projetar espaços. Quando você para e pensa, você vê muito parede, planta, mas ela vai além disso. É traduzir as experiências, a vivência de cada cliente. Cada um tem uma história e a gente tenta agregar isso no projeto, trazendo uma arquitetura mais humana, mais voltada para o ser humano”, afirmou.
Segundo ela, o chamado olhar feminino facilita esse processo principalmente pela capacidade de escuta. “A questão da escuta favorece muito. A mulher, muitas vezes, percebe o outro no jeito de se portar. Essa sensibilidade ajuda a traduzir melhor a história da pessoa para o projeto”, pontuou.
Ao ser questionada sobre possíveis diferenças entre a abordagem masculina e feminina na profissão, Nádia fez questão de destacar que a arquitetura não deve ser limitada por gênero.
“Eu acho que a arquitetura não tem gênero. Durante muitos anos os grandes nomes eram homens, mas hoje, nas faculdades, a predominância é feminina”, observou.
Ainda assim, ela reconhece que a sensibilidade pode ser um diferencial. “Todo profissional pode desenvolver essa habilidade. Mas a mulher, normalmente, tem essa percepção mais aguçada do outro, e isso acaba sendo um ponto favorável na hora de desenvolver projetos mais personalizados.”
Para a arquiteta, a perspectiva feminina contribui diretamente para a criação de ambientes mais inclusivos.
“É a capacidade de perceber o espaço, perceber as pessoas e tentar agregar cada necessidade ao ambiente. Além da estrutura física, a gente precisa olhar para as pessoas. É o olhar para o ser humano que faz o resultado ficar o melhor possível”, destacou.
Apesar dos avanços, Nádia reconhece que ainda existem desafios para as mulheres na carreira, principalmente no reconhecimento profissional e na atuação em campo.
“Os grandes nomes mais reconhecidos ainda são homens, apesar de existirem referências femininas importantes”, ressaltou.
Ela também apontou obstáculos na liderança em canteiros de obras. “Às vezes encontramos certa resistência no lidar com o peão, com a equipe de obra, que nem sempre gosta de ouvir a mulher. Existe um pouco desse preconceito, mas nada que uma boa conversa não resolva. O diálogo faz toda a diferença.”
Nádia revelou que a escolha pela arquitetura tem raízes familiares. O avô era mestre de obras, há engenheiros na família, e desde pequena ela acompanhava reformas e construções.
“Eu era pequena e caminhava dentro das obras. Meu avô comprava casa, reformava e vendia. Eu sempre ficava fascinada em ver como um espaço que não tinha nada se transformava em um ambiente belíssimo. Dar sentido ao espaço sempre me encantou”, contou.
Para enfrentar os desafios da profissão, ela aposta na qualificação contínua. “A arquitetura está sempre evoluindo, ela não é estática. Eu procuro melhorar como ser humano e tecnicamente, buscar sempre algo novo. E também cuidar da divulgação, porque no nosso setor o boca a boca pode levantar ou derrubar um profissional.”
Sobre inspirações, além das referências internacionais, Nádia citou nomes que admira no cenário local e nacional, reforçando a importância da representatividade feminina na área.
“Essas mulheres mostram que a arquitetura pode ter técnica e sensibilidade ao mesmo tempo. Podemos chegar a lugares diferenciados dentro da sociedade, enfrentando cada desafio diário”, concluiu.







