Meu Bairro em Pauta: Samba na Rua Nova, a história de André Lopes e o Sem Mais Nem Menos
Artista relembra influência dos blocos afro e defende mais apoio público para formação musical de jovens
19/04/2026 07h00
A segunda matéria da série especial “Meu Bairro em Pauta”, exibida no programa Cidade em Pauta, da Rádio Nordeste FM, destaca a força cultural da Rua Nova através do samba e da trajetória do cantor e compositor André Lopes, um dos nomes ligados à valorização artística do bairro em Feira de Santana.
Filho da comunidade, André carrega no próprio percurso a identidade cultural da Rua Nova, marcada por blocos afro, projetos sociais e grupos musicais que ajudaram a formar gerações de artistas.
“Sou filho da Rua Nova, nasci e me criei aqui. Aprendi música no bairro, minhas maiores influências são daqui e eu levo isso pra vida toda, pro palco”, afirmou.
Vocalista da banda Sem Mais Nem Menos, André conta que iniciou na música ainda na percussão, participando de blocos afro e projetos locais que marcaram a história cultural da comunidade.
A vivência nesses grupos foi essencial para a criação do Sem Mais Nem Menos, fundado ao lado de amigos e familiares. Segundo ele, o grupo teve papel importante no fortalecimento do samba em Feira de Santana.
“Quando a gente começou, há 25 anos, quase não existiam grupos de samba na cidade. Hoje tem vários. A gente deu aquele pontapé inicial”, destacou.
André também ressalta que a influência da Rua Nova segue presente em suas composições e apresentações, sempre valorizando artistas e referências locais.
“Eu sempre levo o nome do meu bairro por onde eu vou. Gravo músicas de artistas daqui, canto coisas da minha vivência. Faço questão de representar a Rua Nova”, disse.
Apesar da forte tradição cultural, o cantor chama atenção para a falta de incentivo público a projetos musicais no bairro, que poderiam ampliar oportunidades para crianças e jovens.
“A Rua Nova é um celeiro de artistas, mas falta apoio. Já tivemos projetos que ensinavam percussão, tiravam meninos da rua, mas muitos acabam porque não têm incentivo”, lamentou.
Ele defende a criação de escolas de música e políticas públicas que fortaleçam iniciativas culturais já existentes na comunidade.
“Minha vontade era que tivesse escola de música com apoio do poder público. Aqui tem talento de sobra, só precisa de oportunidade”, afirmou.
Além da trajetória musical, André também transforma histórias do cotidiano do bairro em canções. Um exemplo é a música “Seu Luiz”, inspirada em um personagem conhecido da Rua Nova.
A história do Pix no Bar Esquina da Pedra virou uma das mais curiosas e simbólicas da Rua Nova, unindo o cotidiano do bairro à criatividade do samba.
Segundo o cantor André, tudo começou após uma partida de futebol entre veteranos. O grupo seguiu para o tradicional bar de Seu Luiz, onde consumiram bastante. Na hora de fechar a conta, veio o impasse.
“O pessoal tomou umas três caixas de cerveja, comeu tudo, e na hora de pagar, Seu Luiz disse: ‘não trabalho com Pix, não’ e a maioria só tinha dinheiro no celular”, relembrou André.
Sem aceitar cartão ou transferência, Seu Luiz mantinha o estilo tradicional, trabalhando apenas com dinheiro em espécie. Diante da situação, a solução foi improvisada.
“Um amigo teve que ir em casa buscar dinheiro pra pagar tudo. Depois, todo mundo fez o Pix pra ele”, contou o cantor.
A situação inusitada virou assunto no bairro e inspiração musical. André transformou o episódio na canção “Seu Luiz”, que faz uma homenagem bem-humorada ao comerciante e ao seu jeito “das antigas”.
“Eu fiz a música brincando com isso: ‘Seu Luiz é das antigas, mantém a tradição, não vende fiado, não vende no Pix nem no cartão’”, explicou.
A repercussão foi imediata. A música chegou até o próprio Seu Luiz, que, segundo André, entrou na brincadeira e decidiu se modernizar.
“Mostrei a música a ele e, no outro dia, ele já estava trabalhando com Pix”, disse.