Historiadora destaca múltiplas origens de Feira de Santana e defende inclusão de indígenas e negros na narrativa oficial
Vaqueiros, retirantes e processo de miscigenação compõem a história de Feira de Santana

Em entrevista à série especial Feira de Santana e sua história, a historiadora Márcia Suely destacou que a origem do município não possui um consenso entre os pesquisadores.
“Não há um consenso. Há vários estudos, mas a versão mais aceita como referência é a do Monsenhor Renato Galvão, que aponta para o povoado de São José das Itapororocas, a partir das terras de João Peixoto Viegas”, explicou.
Segundo ela, a teoria tradicional, que credita a fundação a Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandoa, proprietários de uma fazenda que teria servido de ponto de apoio para as primeiras feiras, apresenta lacunas importantes.
“Não há registros nos livros das igrejas do período que confirmem a participação do casal em batizados ou casamentos, o que era muito comum na época. Além disso, essa versão deixa invisível a presença indígena e negra que já existia nas rotas de boiadeiros”, pontuou.
Márcia destaca que as principais fontes para entender a história da cidade são as pesquisas do Monsenhor Renato Galvão e os estudos acadêmicos da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), além de registros de doações de terras das antigas capitanias.
“Essas pesquisas mostram que eles [o casal] foram donos de terras, mas isso não significa que essa tenha sido a origem principal da cidade”, acrescentou.
A historiadora ressalta a importância da historiografia em ampliar a compreensão sobre o surgimento de Feira de Santana.
“Ela tem o papel de confrontar as várias vertentes para se aproximar do que chamamos de verdade histórica, trazendo à tona todos os sujeitos envolvidos, desde os vaqueiros que seguiam com as boiadas até os retirantes que formaram o processo de miscigenação da população”, afirmou.
Para Márcia, as lacunas que ainda precisam ser investigadas incluem a história das populações indígenas e dos ex-escravizados.
“As comunidades indígenas praticamente desapareceram da narrativa oficial, e a presença de escravos vindos do Recôncavo Baiano, que ajudaram a formar a população feirense, também é pouco abordada. As pesquisas vêm para somar, não para apagar, mas para ampliar as histórias e contemplar todos que deram origem à cidade”, concluiu.






