Historiador destaca a presença e a resistência da população afrodescendente em Feira de Santana
Ele citou comunidades quilombolas históricas, como Matinha e Lagoa Grande, que revelam a resistência da população afrodescendente.

A história de Feira de Santana não pode ser contada sem reconhecer a presença negra que a construiu e sustenta até hoje. O historiador Diego Bispo, que realiza mestrado sobre o tema, lembrou que a cidade “é negra, apesar de um conjunto de elementos tentar apagar e silenciar essa realidade”.
Segundo Diego, desde o período colonial a mão de obra escravizada foi essencial para o desenvolvimento local, tanto na zona urbana quanto na rural.
“Feira de Santana vendia uma imagem muito rural, mas a cidade cresceu cercada de fazendas e sítios. Era a população negra que abastecia o centro urbano, como os aguadeiros que carregavam água dos tanques para ruas como a Conselheiro Franco e Aurora”, relatou. Ele citou comunidades quilombolas históricas, como Matinha e Lagoa Grande, que revelam a resistência da população afrodescendente.
O historiador destacou que a cidade, apesar de se projetar como terra do vaqueiro, por muito tempo silenciou a contribuição africana.
“O grande símbolo de Feira é o vaqueiro, mas sem a conotação étnica africana. Hoje, trabalhamos para reconhecer também a presença afroindígena”, explicou.
Diegoressaltou a importância das práticas religiosas de matriz africana, que, embora menos visíveis do que em Salvador e no Recôncavo, sempre estiveram presentes.
“Há um conjunto de manifestações que vão do candomblé à umbanda, o que dá o compasso da negritude feirense”, disse.
Ele lembrou ainda a força cultural e política da população negra nas festas populares, em especial a Micareta.
“O movimento negro, a partir dos anos 1980, ocupou a Micareta com o Afoxé e outras iniciativas, não só para festejar, mas como exercício de cidadania e afirmação de identidade”, frisou.
Para o pesquisador, Feira de Santana precisa valorizar sua herança afrodescendente. “É fundamental reconhecer essa história em monumentos e espaços de memória. Um museu na Rua Nova, bairro de grande relevância cultural, seria um marco para celebrar figuras como Lucas da Feira e tantas lideranças negras”, propôs.
Diego Bispo concluiu afirmando que sua pesquisa busca preencher lacunas ainda pouco exploradas.
“Meu trabalho aborda dos anos 1980 até 2011, mas há muito mais para ser estudado, como o papel dos aguadeiros e as rotas da boiada. É desafiador, mas necessário para que Feira de Santana reconheça que sua história é, essencialmente, negra”, enfatizou.






