Estudo aponta viés preconceituoso da inteligência artificial contra regiões do Brasil
Pesquisa internacional revela que algoritmos reproduzem estereótipos raciais e regionais

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, revelou que sistemas de inteligência artificial, como o ChatGPT, têm reproduzido estereótipos preconceituosos ao associar características intelectuais às regiões do Brasil. A pesquisa, divulgada em janeiro, analisou mais de 20,3 milhões de consultas feitas ao robô da OpenAI e aponta um padrão preocupante de viés regional e racial.
Batizado de “The Silicon Gaze” (O Olhar de Silício), o estudo tem alcance global, mas traz um recorte detalhado sobre três países: Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. No caso brasileiro, os dados mostram que estados como São Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal foram classificados pela inteligência artificial como regiões com pessoas “mais inteligentes”. Já estados como Maranhão e Amazonas receberam avaliações significativamente mais baixas.
Segundo os pesquisadores, foi utilizado um sistema de pontuação que transformou as respostas da IA em um ranking comparativo. O levantamento aponta ainda que esse padrão acompanha desigualdades raciais historicamente presentes no país.
Para o antropólogo e sociólogo Ricardo Aragão, professor do curso de Direito da UniFAT, os resultados do estudo evidenciam que a inteligência artificial não atua de forma neutra, mas reflete o conteúdo predominante disponível na internet.
“A inteligência artificial vai buscar conhecimento na internet e o que ela encontra é essa tendência de reproduzir estereótipos e o racismo. Os algoritmos apenas seguem o que está presente na rede”, explicou.
Ricardo destaca que esse problema não é recente e lembra casos anteriores envolvendo outras inteligências artificiais.
“A primeira inteligência artificial lançada no antigo Twitter, pela Microsoft, acabou se transformando em fascista. Uma outra inteligência japonesa chegou a incentivar o suicídio. Isso mostra que a IA não cria conhecimento, ela capta informações da rede mundial de computadores e segue tendências por meio dos algoritmos”, afirmou.
Segundo o professor, o estudo expõe como os padrões de valor e estética estão sendo moldados no ambiente digital.
“O que isso revela é que a internet está recheada desses estereótipos, dessas opiniões racistas em relação ao Nordeste, ao Norte e até entre regiões do próprio país. É assim que estamos construindo nossos valores nas redes sociais”, pontuou.
Ele alerta ainda para o uso crescente da inteligência artificial na produção de conhecimento.
“É uma ferramenta poderosíssima, mas o erro é acreditar que as informações que ela traz são neutras. Elas são direcionadas pelos algoritmos das grandes empresas de tecnologia, como Google, Meta e outras. O estudo comprova que existe um direcionamento claro do conhecimento e precisamos estar atentos a isso”, completou.
A realidade apontada pelo estudo e pela análise acadêmica também é vivida, na prática, por estudantes nordestinos que se destacam nos estudos. A estudante Julia Rocha, que obteve 900 pontos na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), afirma que seu desempenho muitas vezes é tratado como exceção, e não como resultado de esforço e dedicação.
“O Nordeste possui milhares de estudantes que alcançam notas máximas ou acima de 900 no Enem. Mesmo assim, existe um estereótipo negativo que tenta descredibilizar a origem desses estudantes”, relatou.
Julia explica que esse preconceito tem raízes históricas profundas, que ainda impactam a percepção sobre a região.
“Isso vem desde o período colonial. O Nordeste sempre foi visto como uma região dependente, que não se destaca em nada. Por isso, quando um nordestino se destaca academicamente, ele acaba sendo jogado de escanteio”, disse.
Segundo a estudante, a reação ao bom desempenho costuma ser de desconfiança.
“Muita gente diz que foi um milagre, que é exceção. Mas, historicamente, o Nordeste sempre teve notas muito boas no Enem. Ainda assim, uma grande parte do país mantém um preconceito enorme contra a região”, afirmou.
Para ela, a inteligência do nordestino raramente é reconhecida de forma natural.
“É como se a gente tivesse que provar o tempo todo por que conseguiu aquela nota, como se não fosse mérito nosso. Isso acontece por conta da exploração histórica e do abandono do Estado”, destacou.
A estudante relata que essa realidade gera tristeza e frustração.
“Me entristece muito estudar tanto e perceber que ainda existem pessoas que não reconhecem meu mérito só porque sou nordestina. Em pleno 2026, eu, que tirei 900 na redação do Enem, ainda preciso explicar como consegui essa nota só por ser da Bahia. Isso é absurdo”, concluiu.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim






