Saúde

Estudo aponta cerca de 300 mil idosos com autismo no Brasil e reforça desafios no diagnóstico e no SUS

Psiquiatra explica que o autismo não surge na velhice, mas pode permanecer sem diagnóstico por décadas no Brasil.

11/01/2026 12h21
Estudo aponta cerca de 300 mil idosos com autismo no Brasil e reforça desafios no diagnóstico e no SUS
Foto: Polina Kovaleva/Pexels

Um estudo recente divulgado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) revelou que cerca de 300 mil idosos no Brasil convivem com algum grau do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O dado reacende o debate sobre diagnóstico tardio, invisibilidade dessa população ao longo da vida e a necessidade de adaptação do sistema público de saúde para atender essa faixa etária.

O médico psiquiatra Dr. Raphael Silva, diretor da Clínica Vivace e professor de Medicina da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), explica que o autismo não surge na velhice, mas pode permanecer sem diagnóstico por décadas.

Foto: Arquivo Pessoal

“O autismo não é um adoecimento da velhice. Ele começa na infância, é um transtorno do neurodesenvolvimento, com início precoce, mas que pode passar períodos muito longos despercebidos”, afirmou.

Segundo o especialista, um dos principais fatores para esse cenário é o subdiagnóstico, especialmente em adultos e idosos, que durante muitos anos não tiveram acesso a profissionais capacitados ou a uma compreensão mais ampla do espectro autista.

“Como o autismo também é visto, muitas vezes, exclusivamente como uma condição infantil, adultos e idosos acabam não recebendo o diagnóstico adequado”, destacou.

Dr. Raphael explica que o diagnóstico do autismo na terceira idade é desafiador, sobretudo pela dificuldade de reconstruir a história comportamental desde a infância, critério essencial para fechar o diagnóstico.

“A gente não avalia só o momento atual. É preciso entender como esse indivíduo era na infância: se tinha dificuldades de interação social, estereotipias motoras ou verbais, seletividade alimentar ou sensorial. Esses dados muitas vezes são difíceis de coletar quando o paciente já está idoso”, explicou.

Além disso, muitos indivíduos desenvolvem, ao longo da vida, mecanismos de compensação, conhecidos como camuflagem, o que contribui ainda mais para o diagnóstico tardio.

“Eles aprendem a observar como as outras pessoas se comportam e passam a imitar esses padrões. Um exemplo clássico é a dificuldade de manter contato visual. Com o tempo, alguns pacientes desenvolvem estratégias para parecerem mais confortáveis em conversas, o que mascara os sinais do autismo”, afirmou.

Outro ponto levantado pelo psiquiatra é a sobreposição de sintomas entre o autismo e outras condições comuns na velhice, como ansiedade, fobia social e depressão.

“Às vezes é difícil diferenciar se o isolamento social é uma característica do autismo ou se está relacionado a um quadro de fobia social. Além disso, o autismo costuma estar associado a comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, o que confunde ainda mais o diagnóstico”, explicou.

O envelhecimento também altera aspectos cognitivos e comportamentais, o que pode gerar interpretações equivocadas.

“Um idoso pode ficar mais rígido ou metódico, o que é uma característica do autismo, mas também pode fazer parte do próprio processo de envelhecimento”, completou.

Para Dr. Raphael Silva, o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa se preparar melhor para acolher essa população, que historicamente foi invisibilizada.

“O SUS deve estar atento a essa população. Ele precisa se reorganizar para oferecer assistência adequada ao autista em todas as fases da vida, principalmente aos idosos, que hoje não contam com serviços de referência específicos”, pontuou.

O psiquiatra destaca a importância da capacitação de profissionais e da criação de linhas de cuidado que considerem as necessidades sensoriais e sociais dos idosos autistas.

“Não existe remédio para o autismo, em nenhuma idade. O que existe é suporte e terapias que melhoram a funcionalidade e a qualidade de vida. Capacitar profissionais para lidar com sobrecarga sensorial, dificuldades de interação social e outras demandas é fundamental”, ressaltou.

Por fim, ele reforça que o autismo é uma condição crônica e que o cuidado precisa ser contínuo.

“Essa discussão reforça que o autismo é uma condição ao longo da vida. O sistema de saúde precisa enxergar esse cidadão e oferecer cuidado contínuo, do início ao fim da vida”, concluiu.

*Com informações do repórter JP Miranda

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