Especialistas alertam para a dor gênito-pélvica e a importância do tratamento adequado
Dados apontam que entre 11,5% e 19% das mulheres brasileiras apresentam algum grau de dor genitopélvica.
A dor gênito-pélvica é uma condição que afeta milhares de mulheres e ainda é cercada por tabus e desinformação. Para esclarecer a população sobre o tema, a ginecologista Dra. Márcia Suely e a fisioterapeuta especialista em uroginecologia Michele Versalli discutiram o assunto no programa Cidade em Pauta, da Rádio Nordeste FM.
De acordo com a Dra. Márcia Suely, o termo é amplo e pode englobar dores na vulva, vagina e região pélvica, incluindo dificuldades na penetração e ansiedade relacionada às relações sexuais.
“Muitos homens relatam que é como se houvesse uma parede impedindo a penetração, o que pode gerar medo e insegurança na mulher”, explicou.
A fisioterapeuta Michele Versalli destacou a importância de abordar o tema para que as mulheres saibam que existe tratamento.
“Muitas vezes elas sentem a dor, mas não sabem a quem recorrer. Existe uma subnotificação porque as mulheres nem sempre falam sobre isso e, pior, muitos profissionais não sabem fazer o diagnóstico correto”, alertou.
Dados apontam que entre 11,5% e 19% das mulheres brasileiras apresentam algum grau de dor genitopélvica. Segundo Michele, a estatística é alarmante: “Cerca de 40% dessas mulheres sentem dor durante a relação sexual, o que afeta diretamente seu bem-estar físico e emocional”.
A ginecologista ressaltou que a condição não se restringe a mulheres jovens. “Atendemos mulheres na menopausa que sofrem com a dor devido à falta de estrogênio, mulheres no pós-parto e até pacientes casadas há anos que nunca conseguiram ter relações sexuais sem dor”, exemplificou.
As causas da dor gênito-pélvica são variadas e podem incluir infecções urinárias, síndrome da bexiga dolorosa, vaginismo e dispareunia. “Uma das disfunções que vemos com frequência no consultório é a vulvodínia, que é a dor na região da vulva e que pode não estar diretamente ligada à relação sexual”, destacou Michele.
Ela explicou ainda a importância do assoalho pélvico na saúde feminina. “É um conjunto de músculos e fáscias que sustenta a região pélvica. Se ele estiver tenso ou descoordenado, pode levar às disfunções como vaginismo e dispareunia, impedindo a relação sexual com penetração”, explicou.
Dra. Márcia fez um apelo aos profissionais da saúde: “Não menosprezem uma dor ao passar um espéculo durante o preventivo. Muitas mulheres têm vaginismo e não sabem. O ginecologista é a porta de entrada para identificar esse problema e encaminhar a paciente para o tratamento adequado”.
Michele complementou, enfatizando que 90% das pacientes que atende possuem vaginismo.
“Não se trata apenas da relação sexual, mas também de outras funções do corpo. O assoalho pélvico tenso pode levar à incontinência urinária, por exemplo, pois impede o relaxamento necessário durante a micção”, esclareceu.
As especialistas ressaltaram que a dor durante a relação sexual não é normal e que buscar ajuda é fundamental.
“Não é frescura, não se resolve com vinho ou lubrificante. É preciso um tratamento adequado, com acompanhamento de ginecologista, fisioterapeuta pélvico e, em alguns casos, apoio psicológico”, disse Dra. Márcia.
De acordo com a Dra. Márcia Suely, o primeiro passo essencial é o diagnóstico correto. “Como ginecologista, sempre digo que o mais importante é fazer o diagnóstico. Existem pacientes que nunca tiveram relações sexuais devido à dor. Tivemos um caso recente de uma mulher casada que ficou três anos sem ter relações. Com o tratamento adequado, ela conseguiu superar a condição e hoje está esperando um bebê”, conta a médica.
Michele Versalli explica que a fisioterapia uroginecológica é uma especialidade que ajuda na reabilitação dessas mulheres, utilizando técnicas específicas para relaxamento e fortalecimento do assoalho pélvico.
“A avaliação inicial é fundamental. Muitas vezes, o problema não se restringe apenas ao assoalho pélvico. A paciente pode ter tensão na região diafragmática e alterações posturais. Feita essa análise, traçamos um plano de tratamento com objetivos a curto, médio e longo prazo”, detalha.
A importância do autoconhecimento também foi ressaltada. “Muitas mulheres nunca se tocaram ou sequer conhecem sua anatomia. Ensinar essa conscientização é essencial para que elas compreendam sua própria fisiologia e tenham mais segurança na relação sexual”, enfatiza a fisioterapeuta.
Por fim, a fisioterapeuta deixou uma mensagem para mulheres que sofrem com a dor durante o sexo. “Entendam que existe tratamento. Busquem ajuda de um médico especialista, um fisioterapeuta, um sexólogo ou um psicólogo. O tratamento multidisciplinar tem mostrado excelentes resultados, trazendo qualidade de vida e bem-estar”, conclui.