Apostas online ampliam risco de dependência e já impactam renda e saúde mental, alerta psiquiatra
Com base em dados do Banco Central e do Ipea, os estudos apontam que milhões de brasileiros têm destinado parte significativa da renda às apostas

O crescimento acelerado das apostas online no Brasil tem acendido um alerta entre especialistas em saúde mental. Com acesso facilitado por aplicativos e plataformas digitais, o que antes exigia deslocamento até locais físicos agora está disponível 24 horas por dia na palma da mão, um fator que tem contribuído para o aumento de casos de dependência, conhecida como ludopatia.
De acordo com o psiquiatra Dr. Adriano Oliveira, os próprios mecanismos utilizados pelas plataformas são desenhados para manter o usuário engajado.
“Esses bônus que as empresas dão são sempre para segurar a atenção do indivíduo, principalmente de quem já tem dificuldade de controle”, explica.

O médico destaca que a facilidade de acesso eliminou barreiras naturais que antes limitavam o comportamento de apostar.
“Hoje a pessoa pode jogar 24 horas por dia. O jogo está no celular o tempo todo. Isso tira freios naturais, como a necessidade de se deslocar até um local físico”, afirma.
Segundo ele, esse cenário é potencializado pelo chamado mecanismo de recompensa do cérebro.
“O jogo estimula a liberação de dopamina, que é o neurotransmissor ligado à sensação de prazer. Isso faz com que a pessoa queira repetir cada vez mais o comportamento”, pontua.
O psiquiatra faz uma distinção importante entre o uso ocasional e o transtorno do jogo.
“Quem joga de forma recreativa consegue controlar o tempo e o dinheiro, não sofre para parar e mantém a vida organizada”, explica.
Já nos casos de dependência, o comportamento é diferente: “A pessoa perde o controle, aposta cada vez mais, desenvolve tolerância e sofre quando tenta parar. Fica irritada, ansiosa e sempre tenta recuperar o que perdeu”, detalha.
Ele também chama atenção para o papel dos algoritmos: “Não se engane, o sistema está sempre ali para te estimular a voltar. Dá um bônus pequeno, mas no final você perde muito mais”.
Entre os principais sinais de alerta estão a mentira e a ocultação do comportamento.
“A pessoa começa a esconder que está jogando, mente para familiares e isso gera conflitos e prejuízos no trabalho e nas relações sociais”, diz.
O vício também afeta diretamente a saúde mental: “Compromete o humor, o sono, o controle de impulsos e o funcionamento diário. Ansiosos ficam mais ansiosos, deprimidos se frustram ainda mais e isso vira um ciclo de dependência”, explica.
Ele descreve esse ciclo como repetitivo e difícil de romper: “A pessoa se sente tensa, aposta buscando alívio, tem uma sensação momentânea de prazer e depois vem a culpa. Para compensar, volta a jogar novamente”.
O avanço das apostas online também tem reflexos econômicos. Levantamentos do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e da Fundação Instituto de Administração (FIA) indicam que os jogos já superam fatores como crédito e juros entre as principais causas de endividamento das famílias brasileiras.
Com base em dados do Banco Central e do Ipea, os estudos apontam que milhões de brasileiros têm destinado parte significativa da renda às apostas, um fenômeno impulsionado pela popularização das plataformas digitais e pela forte presença de publicidade, especialmente associada ao esporte.
Apesar do cenário preocupante, há formas de tratamento.
“Hoje temos terapias eficazes, como a terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia e técnicas de exposição progressiva”, destaca o psiquiatra.
Ele ressalta que nem todos os casos exigem medicação, mas o acompanhamento psicológico é essencial: “Toda pessoa precisa de psicoterapia, ressignificação e reeducação comportamental e social”.
Além disso, existem medidas práticas de proteção: “Já há ferramentas como bloqueio de aplicativos e até um cadastro nacional que impede o acesso às plataformas de apostas”, conclui.
O especialista reforça que o tema exige atenção crescente, já que a ludopatia tem se tornado um dos transtornos mais incidentes atualmente, ao lado da ansiedade e da depressão, refletindo uma mudança profunda no comportamento social diante das novas tecnologias.
*Com informações do repórter JP Miranda






