Adeus ao orelhão: Feirenses relembram histórias e memórias do símbolo que marcou gerações
O cronograma prevê a extinção total do serviço até 31 de dezembro de 2028.

O telefone público, popularmente conhecido como orelhão, está com os dias contados em todo o Brasil. Ícone da comunicação nas ruas brasileiras por décadas, o equipamento começou a ser retirado a partir deste mês de janeiro, marcando o fim de uma era que antecedeu a popularização dos telefones celulares e dos aplicativos de mensagens instantâneas.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em conjunto com as operadoras, deu início à remoção gradual de cerca de 38 mil orelhões que ainda restam nas ruas do país. O cronograma prevê a extinção total do serviço até 31 de dezembro de 2028.
Criado em 1971 a partir de um projeto da arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa naturalizada brasileira, o orelhão rapidamente se incorporou ao cotidiano da população. Inicialmente, funcionava com fichas telefônicas, pequenas moedas próprias para ligação, que mais tarde deram lugar aos cartões telefônicos, itens que também se tornaram objeto de coleção e memória afetiva.
A decisão de retirada encerra um ciclo de mais de cinco décadas e está diretamente ligada ao fim das concessões de telefonia fixa, oficialmente encerradas em dezembro de 2025. Com isso, as operadoras passaram a atuar sob um regime privado de autorização, deixando de ter a obrigação legal de manter os telefones públicos. Segundo a Anatel, a mudança permite redirecionar investimentos para a ampliação da banda larga e das redes móveis 4G e 5G.
Em Feira de Santana, a realidade já é de quase extinção. De acordo com dados recentes, restam poucos orelhões com linha ativa no município. Um está localizado na Candeia Grossa, com status ativo, e outro no povoado Galhardo, que atualmente encontra-se em manutenção. Os demais equipamentos espalhados pela cidade são apenas carcaças, sem funcionamento.
O De Olho na Cidade esteve no centro da cidade para ouvir histórias de quem viveu intensamente a época em que o orelhão era essencial para a comunicação do dia a dia.
A aposentada Heloizete Lustosa relembra a importância do telefone público em sua vida.

“Fez parte da minha vida. O orelhão era muito útil pra todo mundo, inclusive pra mim. Apesar de que os delinquentes sempre quebravam, ele ajudava demais”, contou.
Ela recorda o tempo das fichas telefônicas e uma ligação especial.
“Eu comprava a ficha, colocava no orelhão e fazia a ligação. Teve uma ligação que foi muito marcante, quando eu precisei falar com meu neto. O orelhão foi o intermédio entre a gente. Foi um momento muito feliz, muito rápido, mas maravilhoso”, afirmou.
O mototaxista Mário Sérgio os equipamentos chegaram a servir como pontos de referência na cidade.

“Já levei gente até o orelhão, inclusive pessoas da faculdade que queriam fazer pesquisa. Eu sou do tempo da ficha, depois vieram os cartões. A gente pegava muita fila pra conseguir ligar”, relembrou.
Mário Sérgio destacou ainda o custo elevado das ligações.
“O cartão era caro. Muita gente não tinha condição de comprar inteiro, comprava unidade. Eu morei um tempo na Paraíba e ligava sempre pra minha mãe aqui em Feira. O orelhão era uma mão na roda, porque telefone em casa era caro e quase ninguém tinha”, disse.
Além das ruas, o orelhão também teve papel fundamental na comunicação com o rádio. O radialista Beto Moreno ressalta a relação direta entre o público e as emissoras por meio do telefone público.

“Houve uma época em que quem não tinha telefone residencial usava o orelhão pra tudo: ligar pra rádio, participar de promoções, falar com o comunicador. Era o principal meio de contato”, explicou.
Para ele, o impacto social foi significativo. “O orelhão teve uma atividade enorme, sobretudo para quem não tinha condição de ter uma linha telefônica em casa. Ele faz parte da história da comunicação e da própria rádio”, afirmou.
Em nível nacional, a retirada dos orelhões prioriza inicialmente as carcaças e aparelhos desativados. No entanto, o serviço não desaparecerá de forma imediata em todas as regiões. Pelo plano de universalização, cerca de 9 mil aparelhos devem permanecer ativos em localidades remotas onde ainda não há cobertura mínima de telefonia móvel, especialmente sinal 4G. Enquanto estiverem em funcionamento, as ligações locais e nacionais para telefones fixos seguem gratuitas, funcionando como uma rede de segurança comunicacional.
Atualmente, o estado de São Paulo concentra o maior número de orelhões ativos do país, enquanto a Bahia ainda possui cerca de 1,5 mil aparelhos remanescentes.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim






