“Sem cortar combustíveis fósseis, o planeta caminha para o ecocídio”, alerta especialista sobre rascunho da COP30
Pesquisador aponta conquistas inéditas na COP30, mas alerta que falta ação decisiva contra combustíveis fósseis.

Reconhecido como um dos maiores cientistas do clima do Brasil, o pesquisador Carlos Nobre avaliou o rascunho do texto final da COP30 e destacou avanços importantes, mas também alertou para pontos críticos que ainda precisam ser corrigidos nas negociações. Em entrevista durante o evento, ele comemorou metas consensuais, mas afirmou que a ausência de uma decisão clara sobre combustíveis fósseis ameaça o futuro climático global.
Nobre destacou que o fato de a conferência acontecer pela primeira vez no Brasil, e na maior floresta tropical do planeta, já representou um marco histórico. Segundo ele, o rascunho do texto apresenta conquistas significativas.
“É a primeira COP em que todos os países concordam em zerar os desmatamentos até 2030, principalmente os países tropicais. Todos os países amazônicos concordaram em acelerar a restauração das florestas. Isso é excelente, é essencial.”
O cientista lembrou que o desmatamento corresponde a cerca de 10% a 12% das emissões globais, e que restaurar a floresta significa capturar grande quantidade de CO₂, que é fundamental para limitar o aquecimento global.
Ele também alertou para os riscos sanitários associados à degradação ambiental: “Se não pararmos de desmatar, vamos gerar dezenas de epidemias e até pandemias. O ano passado tivemos as duas primeiras epidemias da história, como a febre oropouche. Isso é consequência da degradação.”
O lado preocupante: a omissão sobre combustíveis fósseis
Apesar dos avanços, Nobre apontou a principal lacuna do documento: a ausência de uma diretriz clara para eliminar combustíveis fósseis, responsáveis por 75% das emissões globais.
“O rascunho não traz uma declaração para rapidamente reduzir o uso de combustíveis fósseis. A ciência mostra com clareza: precisamos zerar idealmente até 2040, no máximo até 2045. Se não fizermos isso, vamos passar de 2 graus até 2050.”
Segundo ele, o mundo corre risco real de ultrapassar pontos de não retorno, como o colapso da Amazônia ou o degelo acelerado do permafrost.
“Passar de 2 graus é ecocídio. Entre 3 e 4 graus, é suicídio ecológico.”
Nobre afirmou que o Pavilhão de Ciência Planetária, criado pela primeira vez em uma COP, entregou documentos aos negociadores pedindo a inclusão urgente dessa meta.
Alternativas já existem e são economicamente viáveis
O pesquisador também destacou que a transição energética é totalmente possível e já está em curso.
“A energia solar e eólica hoje são mais baratas. O hidrogênio verde vai cair de preço, como aconteceu com os painéis solares. Temos biocombustíveis e até energia renovável gerada a partir dos oceanos.”
Ele informou que, a pedido da secretária-executiva da COP30, o pavilhão científico criará um Painel de Transição Energética, cujo primeiro relatório deve ser lançado na COP31.
Financiamento climático: países ricos ainda falham
Outro desafio destacado por Carlos é o financiamento climático, considerado insuficiente para que países pobres e vulneráveis se adaptem aos impactos e realizem a transição energética.
“As guerras no mundo gastam 2,7 trilhões de dólares por ano e o Fundo Verde do Clima precisa chegar a 1,3 trilhão. Isso não é impossível.”
Ele reforçou que parte desses recursos poderia vir de subsídios retirados dos combustíveis fósseis, hoje superiores a trilhões de dólares anuais.
“Se tirarmos subsídios dos combustíveis fósseis e acelerarmos a transição, é totalmente factível financiar energias renováveis e adaptação.”
*Com informações de Jorge Biancchi, direto da COP 30 em Belém






